Rua 24 de Maio esquina com a Avenida Eduardo Ribeiro

- Paulo?
- Hey! Nossa. Que surpresa.
- Como cê tá?
- É... bem. Tô bem. Acho.. Não, acho não. Tô bem. E você?
- Também.
- Meo. Qual a chance da gente se encontrar em Manaus?
- Bom, eu sempre quis conhecer Manaus.
- Que cê tem feito todo esse tempo?
- Estudado. Desde que a gente terminou eu só tenho estudado. E feito umas dietas detox estranhas.
- Wow. Detox? E as pizzas? Os hambúrgueres? Ketchup?
- Tirei tudo da minha vida.
- Sei bem…
- Como tá seu pai?
- Trypanosoma.
- Como assim?
- Não era problema cardíaco. Era doença de Chagas.
- Ah, putz. Quer dizer, que bom né? Pelo menos não é hereditário.
- É, a gente já tem problema demais pro coração.

O zumbido do silêncio é tão forte que Paulo e Elisa se olham sem conseguir falar nada. Olham em volta. Veem o movimento do centro. Um carro, uma moto e duas crianças depois, Elisa coloca barulho de volta ao assunto.

- Cê vai pra onde depois daqui?
- Ainda não pensei nisso. Vai depender de onde você vai.
- Hahaha só você mesmo, Paulo. Não mudou nada. Parece que sua vida ainda depende da minha.

Paulo ri sem graça, tira um caderninho do bolso, cheio de anotações, e risca Manaus de uma lista gigante.

Nossa vida é um pretérito perfeito

A abelha que a gente prendeu na garrafa ontem, morreu.
O sexo que a gente sempre guardou sob o lençol, estragou.
O leite desnatado que cê deixou na minha geladeira, venceu.
O álbum de fotos da nossa primeira viagem, mofou.
O vinil que tocava a música da gente dançar, riscou.
O vinho que seu pai me trouxe do Chile, avinagrou.
A primeira carta de amor que escrevi pra você, amarelou.
O papel que hoje te escrevo estas palavras, molhou.

Nem em sonho paro de sonhar com você

Passei o braço sobre o lençol
como faço todos os dias antes de abrir os olhos.
Gosto de ver você com as mãos
primeiro.
Passar por sua cintura
subir
sentir
o desenho do seu peito
sob o pano
e perder ali
alguns minutos só
então quando sua respiração mudar
levemente
subir pro seu cabelo.
Tirar os fios do seu rosto
colocar atrás da orelha
e liberar espaço pra alcançar sua boca.
Quando enfim
seus olhos abrem
os meus também.
Ver você me olhando
é o melhor jeito de nos ver.
Mas pera
cadê?
Que que esse papel tá fazendo
no seu lugar?
Que carta é essa?
Como assim a gente não vai mais se ver?
Pois saiba
por mais que esse papel embaixo
do travesseiro lembre você
seu cheiro não tá aqui.
Ir embora da minha frente
não te tira de dentro de mim.
É uma pena que sua lembrança seja
a coisa mais palpável
que agora eu vou ter
pra acarinhar.

Um pequeno passo pro homem, um passo gigantesco pra saudade

É tipo uma praia, só que sem água.
Uma praia fria.
Que os grãos de areia caem da mão em câmera lenta.
É vermelho.
Vermelho como a terra no sítio do tio Frank.
Só que não tem o pomar.
Nem a casa.
Nem o tio Frank.
É grande.
Dava pra ter muitos pomares, muitas casas e muitos Franks.
Dava pra colocar uma piscina ali.
Congelada.
Que ninguém ia nadar.
Então colocaria uma churrasqueira lá.
E como não tem oxigênio, a churrasqueira não ia acender.
Ia ficar apagada igual o fogão da vó Ewa quando ela não queria fazer bolo de milho.
Quando foi a última vez que eu entrei numa piscina mesmo?
Nem churrasco eu lembro de ter comido.
Tá tudo meio lento.
A vida podia passar mais devagar também.
Imagina o tio Frank mais devagar.
Imagina a vó andando igual os grãos vermelhos.
Imagina a praia dentro da casa.
Um churrasco inteiro de pomares.
Só que sem bolo de milho porque não tem piscina.
Quanta tecnologia o futuro trouxe pra gente.
E ainda não podemos visitar o passado.
Ficam só lembranças que vão se apagar como essa pegada aqui.
Há quantas pegadas eu tô de casa?
Há quantas pegadas eu tô do sítio?
Há quantas pegadas eu tô do passado?
Vó Ewa ia ficar puta com a casa toda suja de vermelho.
Olha o tamanho desse planeta e não tem nenhum pomar.
Lá fora do capacete a lágrima ia cair em câmera lenta.

A vida é imprevisível até quando é previsível

Eu tava chegando em casa quando vi a movimentação. Ninguém precisa te dizer que tem alguma coisa errada. Coisa errada tem cheiro de coisa errada. A rua alternava entre vermelho e azul. Tinha a mesma quantidade de carros de polícia e carros de bombeiro. Pessoas espalhadas em pequenos grupos conversavam olhando pro alto. O trânsito tinha sido desviado pra rua debaixo. Do resto, parecia que tudo corria bem. Não tinha nenhum som estranho. Não tinha nenhuma ambulância. Pensei, bom, parece que nada de grave aconteceu. Quando eu virei na minha rua, tinha pedaços de vidro por toda calçada. Um bombeiro colocou a mão no peito no momento que eu coloquei a mão na porta. Senhor, teve um incêndio no prédio, o senhor precisa aguardar a vistoria e a liberação pra subir. Em qual apartamento...



Nessa hora um zumbido agudo e baixo não me deixou ouvir o resto. Como eles vão dar a notícia pro morador? Quem será o morador? Será que tá tudo bem? Será que atingiu muitos apartamentos? Será que tinha gente morando onde pegou fogo? Porque pode ser que nem tinha gente morando. Lembrei de como é dolorido perder coisas. Lembrei das coisas que já perdi na vida. Meus pais que foram embora antes dos 19. Meus empregos que ficaram pra trás. Meus brinquedos. Meus dois cachorros. Meus avós. Alguns amigos. A carteira semana passada. A Márcia ano passado. Talvez de todos os meus relacionamentos, a Márcia foi o que mais doeu perder.



... senhor? Qual apartamento o senhor mora? No 72, respondi. O bombeiro colocou a mão no meu ombro e pediu que eu acompanhasse ele até a viatura. Foi só nessa hora que eu percebi que era comigo toda aquela história. Eu era o personagem do incêndio. Por isso todo mundo tava me olhando quando eu passei. Por isso não tinha ambulância. Por que não tem ninguém em casa quando eu não tô em casa. Eu comecei a rir. O bombeiro me abraçou achando que eu chorava. Mais algumas pessoas chegaram pra me consolar. Eu continuei rindo. Não era de nervoso. Era de certeza. Perder tudo seria muito mais dolorido se eu tivesse alguma coisa. Ninguém entendeu nada.

Ainda sei imitar sua letra

Falei durante horas com o objeto no chão que esperou meu monólogo acabar. Olhar praquilo me faz pensar em você toda vez. Não sei se é a cor, o tamanho ou o cheiro de sei lá o que. Mas, ver aquilo só me traz lembranças suas. Lembranças nossas, na verdade. Tem pó pela casa. Tem pó na mesa. Tem pó pelas coisas. Tem pó em mim. Não escrevo nada faz tempo. Perder você me tirou a produção. Queria organizar a casa, seguir em frente e, quem sabe, superar essa ida. Todas as histórias que contei antes da carta tinham vida, todas as histórias que não contei depois da carta têm morte. Sou agora um escritor sem alma. Olhar aquela folha de passado no chão com palavras suas impressas me fez pensar que, de todas as histórias lacrimáveis que eu já escrevi, uma carta de suicídio não se compara a nenhuma delas. Gostar em excesso de você não imaginei que levaria a isso. Te amarrar foi um jeito que achei pra te segurar. Ninguém desconfiou que te matei. Eu amava demais pra duvidarem.

O dia que eu não vi neve pela primeira vez

Foi num café da manhã em Istambul. Eu comia bolo de farinha, homus e pepino. Sei lá, tinha tudo isso na mesa e eu peguei. Na minha frente tinha uma família mexicana. Cada um deles tentando resolver um problema. Um dos problemas era sobre um chip pré-pago. Na mesa do lado tinha uma mulher estranha sentada sozinha. Ela tinha as unhas gigantes. Mal conseguia segurar as coisas que comia. Uma rádio local tava sintonizada na TV. O locutor falava há muito tempo. O resto do salão estava repleto de turcos em silêncio. O garçom limpou todas as mesas. Mas deixou apenas uma suja. Lá fora, um gato desfilava de um lado pro outro em cima da calha que separava o terreno do café, da casa do lado.

De repente, na minha frente, como se eu tivesse esperando, caiu um floco de neve. Não era sujeira, não era cinza, não era folha, não era pena. Eu nunca tinha visto um floco de neve. Mas sabia que era um floco de neve. Eu vi só o começo da cena. O resto ficou embaçado. Depois de um tempo, enxuguei os olhos e continuei olhando. Esperando. Outros flocos caíram de leve. Não era o suficiente pra deixar o chão branco. Não era o suficiente pra deixar nada branco, na verdade. Eram poucos. Solitários. Eu nunca tive o sonho de ver neve. É um espetáculo bonito. Eu sabia que um dia ia ver. Mas nunca foi o sonho. Tanto é que eu não tava preparado. Aquilo foi tão sutil, tão calmo, tão leve e pequeno que me pegou de um jeito muito forte. Fiquei ali sentado quase uma hora. Olhando o que acontecia lá dentro e lá fora.

Só que ninguém mais tinha reparado que nevava. Na verdade, ninguém tinha reparado em nada do que acontecia. Eu vi tudo isso acontecer durante muito tempo. E quer saber, mesmo se eu não tivesse reparado em nada, tudo ia continuar acontecendo. As coisas não precisam ser vistas pra existir. Elas vão existir. Cabe a gente merecer ver. E não é você que escolhe, são as coisas que escolhem você. E assim, de uma hora pra outra, tudo fez sentido. Eu não tava ali pra ver a neve. Eu tava ali pra ouvir os mexicanos e o locutor. Eu tava ali pra ver a mulher estranha de unha grande que ninguém olhava. Eu tava ali pra ver os turcos em silêncio. Eu tava ali pra reparar na mesa suja que ninguém notava. Eu tava ali ver ver o desfile do gato. E foi nesse dia que eu descobri que não nevou pra mim.

MIDAS

Fernanda tapou o grito com o dedo cortado. Uma gota de sangue na pia, perto do queijo e uma gota na camiseta, perto da testa da Twiggy. O silêncio na cozinha foi uma mistura de dó e arrependimento. Não devia ter pedido pra ela cortar mais queijo. Eu devia ter cortado o queijo. Fernanda já tava bêbada. Eu já tava bêbado. A gente nem ia comer mais queijo. Ninguém devia ter cortado queijo. A taça de vinho ficou parada na minha mão alguns instantes e só não ficou mais imóvel porque a taça dela tava em cima da pia, obviamente mais parada. Olhar a Fernanda lavando o dedo e ver a água rosa escorrer pelo ralo me fez pensar no Lucas, que tava de rosa quando passou mal no show de ontem e a gente teve que deixar tudo pra trás e levar ele embora. Foi nessa hora que as coisas começaram a fazer sentido na minha cabeça. Como eu não tinha reparado antes? Todo mundo em volta de mim começou a se machucar. Nessa noite eu não consegui dormir.

No caminho do trabalho, a avenida principal tava bloqueada, um motoqueiro foi atingido por um Toyota que trocou de faixa sem dar sinal, disse o homem que subiu fora do ponto. Quando cheguei no escritório, o elevador tava quebrado. Vânia, da contabilidade, tinha ficado presa quando descia pra fumar. Logo a Vânia que tem claustrofobia. No email, uma nota de falecimento do RH pros funcionários, seu Tino, vô da Clara, a telefonista. O resto do dia não teve mais surpresas. Mas foi só a terça-feira começar que coisas voltaram a acontecer. Uma mulher tropeçou na minha frente quando eu chegava no ponto. Um senhor bateu a testa no ferro dentro do ônibus. No almoço, uma menina se engasgou na mesa do lado. A TV me ajudava a ignorar as desgraças, diluindo as coisas ruins no meio de esportes e bobagens. É mais difícil prestar atenção na dor quando não dói na gente.

Isso já deve tá acontecendo faz um tempo. Tô tentando lembrar quantas vezes nas últimas semanas fui parar num hospital ou numa farmácia com algum amigo. Não consegui. Pior que quanto mais eu reparo, mais eu vejo desgraças e problemas acontecerem. Minha vizinha. Meu porteiro. O cara da banca. A mulher do café na esquina. Meu irmão. A Marina. Puta que pariu. A Marina. “Meo, cê precisa parar de machucar as pessoas” e saiu. Foi essa a última coisa que a Marina me disse antes de sair da livraria no dia que a gente terminou. Sabe aquelas coisas que as pessoas te falam e você não dá importância? A Marina sempre foi uma pessoa especial. Na minha vida e na vida de quem vivia em volta da gente. Todo mundo que queria um conselho, uma ajuda, ou uma opinião, falava com ela. Marina tinha virado uma espécie de trampolim na vida das pessoas. Até a minha vida foi outra no tempo que a gente viveu junto. Na verdade, tudo sempre deu certo pra Marina, mesmo antes da gente se conhecer. Nessa noite eu não consegui dormir, de novo.

“Meo, cê precisa parar de machucar as pessoas” foi a frase que ficou na minha cabeça durante dias. Eu gostava da Marina. Mas a gente foi deixando de se amar com o tempo. E com o tempo, minha vida foi virando uma merda. E a merda foi incomodando. E um belo dia a gente terminou com essa frase de trilha sonora. Bom, de lá pra cá as coisas só pioraram. Hoje, olhando esse monte de gente se machucando em volta de mim, vejo o quanto é difícil viver com essa responsabilidade. Cada dia, cada hora, alguém que eu gosto, conheço, convivo ou, simplesmente me relaciono, se machuca. Ora leve, ora grave. Ninguém sabe que a culpa é minha. Só eu e a Marina. Tem ficado cada dia mais difícil suportar isso. E eu sei que só me restam duas alternativas, suicídio ou voltar com ela. E de ambas as duas vou me arrepender.

O telefone toca pela décima quinta vez até cair na caixa postal. Quantas vezes um telefone toca em média até cair na caixa postal? As pessoas ainda usam caixa postal? Eu odeio quando deixam recado pra mim. "Marina? É o Fran. Será que a gente podia..." foi a única coisa que deu tempo de gravar. Pensei demais antes de falar alguma coisa. Dois dias. Foi o tempo que passou até eu receber uma mensagem. Marcamos um café. Precisava conversar. Marina sabia de tudo que eu tinha pra dizer. De cada problema. De cada detalhe. De cada decisão. Marina não gosta mais de mim também. E mesmo assim, decidimos voltar. Foi uma decisão muito triste e amarga. Mas não era pelo nosso bem. Era pelo bem de todo mundo que cercava nossas vidas. Era pelo bem de amigos, conhecidos e familiares. Nessa noite, ninguém mais se machucou. Além da gente.

Escrevi isso porque mesmo longe fui capaz de encontrar com você

Por algum tempo 
tentei te entender
Tentei me entender
Tentei entender a gente
Tentei
Mas cê sabe que essas coisas de dentro
são consequências né?
Por mais que eu arrume explicação
a gente vai continuar acontecendo
Sem programação
Sem dia
nem hora certa
Sem data
nem coisa certa
Sem cobrança
sem medida
sem exagero
Tava pensando aqui
(veja bem
até mesmo sem querer pensar
que coisa doida é gostar)
Você é tipo um mosaico pra mim
Quanto mais eu gosto de você
mais eu te espedaço
E cada pedaço seu
fica jogado por aí
cruzando comigo
di
a
ri
a
men
te
É difícil te achar
sem nem te procurar
Mas é isso
vivo achando partes suas
nos cantos
da saudade
É um eterno te montar
Amores cíclicos 
são como flechas que a gente dispara
e no fim do caminho
vão acertar nosso coração
também
Amém.

A fila anda

- Não. Não adianta. A gente já tentou de tudo, Fê. O casamento não tem mais solução. Óbvio que não. Quem faz terapia de casal, Fernanda? Terapia de casal é o jeito que os terapeutas encontram pra enganar mais de uma pessoa ao mesmo tempo - Gláucia pede desculpa com a mão e tira o carrinho que atrapalhava a passagem da velha.

- Cê já foi casada três vezes, Fernanda. Cê sabe muito bem quando um casamento tá no fim. Não me importa o que minha família vai achar. Vai achar que não deu certo. É isso que eles têm que achar. Ãn... Outra? Pode ser. Pode ser que ele já tenha outra faz tempo. Já pensei nisso também. Não. Jamais. Ele nunca soube. Vai morrer sem saber que isso aconteceu - Gláucia apalpa o mamão maduro e decide levar dois.

- Cê é a única pessoa que sabe disso. Não falei pra mais ninguém e não pretendo falar. Até porque isso é assunto encerrado e não vai mudar em nada minha vida. Tá, foda-se, idaí que eu ainda falo com ela? A gente não pode ser amiga? Sim. A gente sai de vez em quando não é isso que amigas fazem? Não né Fernanda. Nunca mais rolou nada. Que que cê tá insinuando? - Gláucia chega no caixa e começa a tirar as coisas do carrinho.

- Bom, depois cê reclama que eu não te conto nada, que eu não abro minha vida, que eu não sou sua amiga. Quando eu digo as coisas não é pra você falar a verdade, é pra você mentir, é pra você ficar do meu lado, não me acusar, se você acha que o casamento tá acabando por minha culpa, se você acha que me apaixonei pela Cristina, que não dou mais atenção pro Rogério, melhor a gente conversar outra hora. Beijo, Fernanda - Gláucia desliga o telefone e percebe que esqueceu, de novo, a banana.

Quantas vezes você já perdeu seu cheiro em alguém?

A primeira vez que passei por ele foi na esquina da Ipiranga com a São João e eu odeio contar essa história porque a esquina é muito clichê e todo mundo acha que romantizo demais minha vida. Ele passou com fones no ouvido, uma mochila nas costas e duas baquetas invisíveis nas mãos. O que ele tava ouvindo eu não faço ideia mas, minha vida teve uma música incrível depois daquele dia. A gente passou a se cruzar várias vezes por mês apesar dele nunca reparar em mim.

No começo eu perdi apenas o foco, foi uma questão muito simples e sutil pra perceber qualquer mudança, só que não demorou muito até começar a perder outras coisas. Quando a alma se perde pela rua, o corpo vai ficando pra trás pedacinho por pedacinho também.

Hoje, já não sinto mais cheiro de nada, já não tenho mais perfume nenhum, já não tenho tato pras coisas. Ando pelas ruas com uma bengala de cego nas mãos. E apesar de não ser mais o que era no começo, toda vez que cruzo com ele eu sei que a gente tá perto. Ainda toca no meu peito a música daquele dia. Engraçado como a gente não precisa de muita coisa pra amar.

Microconto #665

O homem de um metro e meio senta meio triste a mesa. Meia hora depois sua garrafa de vinho está pela metade. Seu jantar está pela metade. Seu trabalho está meio feito. Sua noite está meio fria. Ele olha o celular com bateria em cinquenta por cento e meio que espera alguém mandar mensagem. Já está sozinho há meio século. Mas ele ainda tem pela frente uma vida inteira pela metade.

Microconto #664

Toda manhã preparo uma dose de dívidas. O café desvalorizado é tudo que o dinheiro ralo pode comprar. Saio de casa com o bolso vazio e o estômago pobre.

Amores não são feitos de amor

Ontem foi meu aniversário, e pela primeira vez, eu ganhei um presente um tanto quanto novo. É um presente simples, mas que demora muito tempo pra ficar pronto.

Eu te amo.

Ah, e não foi só um. Foram vários. Acho que essa é a primeira vez que eu ganho tantos eu te amo’s assim. E eu não tô falando de relacionamentos, tô falando de família e amigos.

O amor é uma coisa maior do que a gente consegue medir. É por isso que o amor cabe muito mais dentro das amizades do que dentro dos amores. Amigos são coisas grandes demais.

Um relacionamento, no fundo, não é feito de amor. Um relacionamento é feito de muitas coisas pra dizer que só o amor pode unir duas pessoas. Um relacionamento é feito de confiança, transparência, honestidade, vontades, tesão, carinho, objetivos e respeito.

Quando duas pessoas que não tão mais juntas, conseguem manter uma amizade de verdade, isso é amor. Quando duas pessoas se gostam tanto, se conhecem tanto que, passaram do ponto de namorar, isso é amor. Muitos relacionamentos ainda estão de pé não por amor, mas por companheirismo e por admiração.

Agora. Amizades não. Amizades pra ficarem de pé, precisam de amor. Você já parou pra pensar quantos amigos de verdade te cercam? E pra quantos deles você realmente pode dizer te amo?
Querida poesia,

Espero te tratar bem.
Espero te dar um pouco de cor.

Não.
Minto.
Espero te dar muita cor e muitos detalhes.
Espero que você possa sentir os cheiros
que não senti
e saiba escrever isso
de um jeito que ninguém jamais viu.
Espero que aprenda novos nomes
pras velhas coisas.
Porque o de sempre
vai continuar o de sempre
pra sempre
se você não arriscar.
Espero que você nasça
cada vez mais
de amor
e cada vez menos
de dor.
Que você saia do peito
mas
que seja ansiosa no voltar.
Espero ainda
que o mundo não te entenda.
Já me explico.
Entender é pra duvidosos.
Quem ama tem certeza.
Por isso repito,
o mundo não precisa te entender
o mundo precisa te sentir.
No que depender de mim
vou fazer de tudo
e isso inclui não fazer nada
até porque
o silêncio
é também uma forma poderosa de falar.
Ainda é cedo pra dizer
eu sei
mas você não tá sendo feita pra mim.
Tá sendo feita pra alguém.
E só espero que
quando chegar o dia
você cuide dela
tão bem
quanto cuidei de você.

Com carinho,
Tiago.

Alguém anotou a placa daquela menina?

O amor é uma rua
sem faixa, farol
e sinalização,
onde cada um
anda prum lado
atropelando
corações distraídos.
o abraço
é laço
que o braço
faz em volta
do amor
que nunca
nem por um momento
pensou em fugir

Microconto #663

E no fim, a princesa descobriu que o príncipe nunca deixou de ser sapo.

Desculpa mas você não tava nas minhas metas pra esse ano

Abro a terceira garrafa de vinho e começo a escrever.

São Paulo. Dezembro. Dia 27, se não me engano.

Esse foi um ano difícil.
Dentro e fora do peito.
Dentro e fora do bolso.
Dentro e fora dos eixos.
Muitas coisas aconteceram mas, o saldo de coisas ruins, dessa vez, foi um pouco maior.
Fora que boa parte dos meus objetivos não se realizaram, e olha que eu nem tinha tantos objetivos assim.
Tomo outra taça e desisto de pensar nas coisas ruins. Vou tentar de novo.

São Paulo. Dezembro. Eu disse dia 27?
Desculpa, deve ser dia 28. Ando meio perdido ultimamente.

Lembro de umas viagens. Um trabalho bom que eu fiz. Lembro do meu livro novo que foi publicado. Umas festas doidas. Alguns amigos feitos. Umas bebidas diferentes. Lembro também de uns sabores novos que conheci. É aí que chego em você.
De todas as coisas que eu esperava pro meu ano, você não era uma delas.
Eu tinha traçado tudo, já imaginando desvios e dificuldades, claro. A gente sempre espera que alguma coisa saia da rota. A gente sempre se programa pros imprevistos. Mas você; você foi realmente uma coisa inesperada.
Outra taça.

Hoje, 29 de dezembro (?), eu me pego fazendo as metas pro ano que vem. Não sei muito bem o que esperar. Não sei muito bem o que programar. Vou colocar mais algumas viagens, mais alguns sabores, acho que é cedo ainda pra outro livro, quem sabe um novo emprego, preciso tomar vergonha na cara e tirar meu visto, mesmo não gostando tanto assim dos Estados Unidos, eu queria aprender a dançar, mas não sei se isso é uma meta ou um hobby, enfim. Muita coisa vai mudar, isso é fato. A vida é mesmo muito incerta e a gente não pode ter controle de tudo, mas pode ter foco. Olha você, por exemplo. Você não tava nas minhas metas pra esse ano. Mas agora, você já tá nas minhas metas pro ano que vem.

Mais uma taça. Saúde e feliz ano novo pra nós.

O que eu aprendi quando descobri que não sabia nada

A gente acha que pelo fato de crescer do lado da família, já conhece todo mundo muito bem. É engraçado como a gente erra a vida inteira e mesmo assim ainda não aprende umas coisas tão bobas.

Este natal, por exemplo, o Brian, que sempre foi da bagunça, foi o único que ficou em casa trabalhando. Enquanto eu, meu pai e minha mãe, saímos pruma pequena viagem. Logo esses dois que são bem caseiros. 

Natal pra mim sempre foi uma data normal. Tirando uma vez que ganhei um vídeo-game, e isso me marcou bastante, acho que o Rodrigo lembra desse dia. Os outros natais só seguiram minha expectativa.

Então, esse natal, resolvi fazer um pouco diferente. Catei as malas, catei o seu Geraldo e a dona Claudia e fomos pra Bahia. E olha, é cada coisa que a gente vai aprendendo numa viagem dessas. Trejeitos, manias e costumes que pareciam sabidos, na verdade se renovam a todo momento.

Nessa viagem eu descobri que meu pai tem mais medo de piscina do que de avião. E olha que ele tem bastante medo de avião. Descobri também que eu tava com muita vontade de comer umas comidas baianas. Mas minha mãe me superou. Meu pai deixou de lado alguns receios de estranhos e fizemos boas amizades. Minha mãe que sempre se gabou de saber nadar, perdeu pra mim em todas as competições na piscina do hotel. Pausa pra uma confissão: eu não sei nadar. Ah, teve o episódio também que meu pai ficou feliz por achar frango em todos os restaurantes. Vai entender.

Não sei como anda seu natal. Não sei como anda sua família. Não sei como anda sua relação com as pessoas que você ama. Mas uma coisa que eu aprendi foi, e talvez te ajude também, não  importa o dinheiro, não importa o glamour, não importa o tempo, não importa com quem você esteja hoje. A única coisa que importa é, você não saber nada. Porque quanto mais nadas você souber, maiores suas chances de reparar nas novidades.

Então, um natal cheio de nada, pra você entupir de histórias.

A vida é uma ampulheta

O dia não espera
pra amanhecer.
O amor não espera
o coração querer.
A saudade não espera
a distância aumentar.
A carência não espera
a falta acontecer.
O tempo não espera
o relógio funcionar.
A morte de tudo

é ansiosa.

Achar você foi o mesmo que me perder

A melhor parte da minha vida
eu coloquei na estante.
Não entendo
de( )coração
mas ela entende
de interiores.
Foi um estrago o que aconteceu em mim.
Olha isso aqui
olha como eu fiquei por dentro
quando cê entrou.
Sabe quando a casa
não tá em ordem
e chega visita?
Dá uma vergonha danada
de amar.

O que seria do espelho se não fosse o outro lado?

o tempo vai passando
e o espelho vai
en
fer
ru
jan
do
na parte de trás 
e para de refletir.
Logo o espelho
que foi feito
só pra isso.
Vai parando de refletir
e vira vidro.
Nada mais que um vidro
que não serve
pra mais nada.
Ao contrário da gente
que vai envelhecendo
e aparecendo
cada vez mais
pra gente mesmo.
Vai descobrindo o que é
o que quer
o que faz
e porque fez.
O tempo ensina a gente
a se enxergar melhor.
Algumas coisas na vida
perdem o sentido
pra você aprender
a sentir outras coisas

um pouco mais.

Reparando bem problema só não tem quem não repara bem

Pinga a goteira
no meio da sala
o pai chega
bêbado
a mãe limpa
a poça de água
e vômito
pinga pai
pinga água
pinga.
Não existe coração
que resista
a uma saudade.

Somos fracos quando
o amor
é pra dentro.

A vida é
uma implosão
forte de sentimentos.

É cada líquido que a gente produz quando tá apaixonado

O que cola meu corpo
no teu
é atrito.
Eu melo de mim
tua secura de solidão.
Chove hoje
sal
na nossa caatinga.
O mato cresce
e mata
o vazio
com verde íris. 
Como é bela
a cor do teu jeito
de me olhar.
Oxalá não faltem sorrisos
em minha cara
pra plantar na tua.
Tudo que sai daqui
reflete aí
no aconchego dessa casa colo.
Eu acarinho
tu acarinhas
nos acarinhamos
êta verbo danado
é esse
de alisar teu cangote

com palavras.

Palavras ditas no escuro podem não achar o caminho do coração

Tudo o que eu disse pra você ontem a noite
tudo
tudo era verdade,
não sei porque você não acreditou.
Não sou muito convincente quando tô apaixonado
eu sei.
Pareço mais honesto quando tô mentindo.
O dia amanheceu com uma sombra

na parede do meu quarto.
Perdi você porque não consegui provar
o tanto que te amo.
Mas amor,
o amor é uma coisa que não se prova,
ou ama
ou vai embora.
Quando falo pra outras mulheres
as mesmas coisas que disse pra você
eu penso
se você tá fazendo o mesmo,
falando pra outros homens
o que disse pra mim.
E torço pra que sim
sabia?
Não é que a gente esteja mentindo
pra todo mundo
pelo contrário,
a gente só tá repetindo
o que sentiu de bom.
O amor não é lembrar eternamente,
meu bem.
O amor,
é esquecer completamente
a pessoa
e viver procurando pedaços dela
nos outros
por aí.

Quantas vezes você já disse que ficar longe de uma mulher fez você ficar mais perto dela?

Apesar da minha mãe ser uma pessoa mais calada, a gente tinha uma boa relação quando eu era pequeno. Por ser assim, quieta, era como se ela conversasse pra dentro, remoendo sozinha, as histórias difíceis que passou na infância. Talvez, essa tenha sido uma de nossas barreiras de comunicação na época. Uma barreira que resistiu a tudo. Menos a distância.

O dia que saí de casa pra morar sozinho foi como se eu tivesse nascido de novo. E, ser filho duas vezes me fez amar dobrado essa mulher. Foi incrível.

Eu sei que ter uma vida difícil não é exclusividade da minha mãe. Todas as mães têm uma vida difícil. Parece que alguém fica testando elas o tempo todo pra saber se elas vão tá prontas pra cuidar da gente um dia. E, por mais tarde que você chegue em casa, por mais doente que você fique, por mais sujeira que você faça, por mais problemas que você tenha, ela vai ser mãe.

Hoje, morando fora de casa, percebo quanto tempo a gente perdeu deixando de fazer um monte de coisas. Quantos colos, quantas conversas e quantos cafunés a mais não podiam tá nessa conta. Ter por perto quem a gente ama, faz a gente diluir o carinho e os abraços na rotina. A facilidade e o acesso são péssimos amigos da importância. Hoje, quando volto pra fazer visita é como se eu tivesse pagando um pouco dessa dívida. E, toda vez que eu vou embora, é um novo parto. Como é bom nascer de novo de você.

Quem fala primeiro perde mas, quem fala por último não ganha

Falar demais também é falar de menos
amar demais nunca é amar de menos.
Tudo o que disse até hoje
é só um pouco do que queria fazer
tudo o que calei
é muito do que não devia dizer.
Se amei errado
não é culpa do coração
foi com a boca que falhei.

Enfim, o segundo filho.


















Quase dois anos depois do lançamento do primeiro livro, chega o dia do próximo.

Aos poucos, o fim. Meu novo livro, dessa vez de micro-contos, será lançado às 19h no Patuscada - Livraria, Bar e Café - Rua Luís Murat, 40 - Vila Madalena - São Paulo - SP.

Todos que estiverem por São Paulo nesse dia, estão convidado ; )

Você é um endereço que eu ainda vou (na)morar

Na rua onde moro
não mora mais amor
é uma rua cheia de corpos abandonados
que não têm mais número
nem fachada
nem cor.
ninguém entra
ninguém sai
ninguém entra e sai.
É como o coração onde moro
não tem mais luz
só um parque vazio
que não nascem abraços
nem passa rio.
As calçadas que levam até mim

são esburacadas de rancor.

A delicada violência que é o amor

Chega de espaço
entre
minha boca e a sua.
Chega de lonjuras.
Se achegue
e fique mais perto.
Coloque seus olhos na minha altura.
Aumente sua respiração
e suspire
na mesma velocidade
que eu reparo.
Não diga nada.
Só se aproxime.
Nossos corpos
são barreiras desnecessárias.
Não quero fronteiras
nem mapas
muito menos distâncias.
Esquece o que tá em volta
e volta.
Vem
vai
vamos logo pra dentro um do outro.
Um beijo acontece
quando duas pessoas descobrem
que muitas coisas
podem ficar pra depois.
esvazio-me
de corpos
encho-me
de copos
estou cheio
de vontades
invertidas

O dia que tudo virou espelho a vida passou a ser vontades invertidas

Uma vez sonhei que tava sonhando
e dentro do sonho
tinha outro sonho
e outro
e mais outro.
Até hoje
só acordei de alguns.
A realidade é mesmo uma farsa.
O que eu faço de olhos abertos
tem profundidade
mas não tem altura.
Não é fácil chegar no céu
disse a menina com as asas nas mãos.
Realmente
uma vez tentei roubar estrelas
mas sempre me perco
quando não tem onde segurar.
Já pensou
se na verdade
a lua fica no mar
e o que a gente vê lá em cima
é só o reflexo?

A roupa de cama sempre foi nossa segunda pele

Sonhei com você essa noite. E, apesar de ter amado te ver eu não lembro de tudo. Sei que foi um sonho bom. Ontem, quando deitei, a cama tava fria. Tinham dois travesseiros e até hoje eu não sei porque ainda tenho dois travesseiros depois que você foi embora. Hoje, sem você, eu mal me encaixo no teu cheiro. São demais dois travesseiros.

Lembrando do sonho eu lembrei de quando a gente ficava aqui assistindo, matando o tempo, curtindo e se aquecendo. Às vezes, nem frio tava, cê lembra? Mas eu lembro que não foi sobre isso que eu sonhei. A parte que eu mais lembro do sonho, e isso você sabe o valor que tem, já que lembrar não é o que eu sei fazer de melhor, era que o sonho foi sobre dormir.

O sonho me fez pensar como a gente se aproveitou pouco nesse sentido. Tipo, toda vez que a gente deitava, a gente só pensava em fazer outras coisas, como se o prazer fosse inédito. Como se o tesão nunca mais fosse voltar, e, se a gente perdesse um segundo conversando ou beijando ou descansando, a vida deixaria de fazer sentido.

Ontem a noite eu percebi, na cama fria, que ao invés de putaria, a gente podia também ter dormido um pouco mais.

Todo esforço que faço pra esquecer é um constante lembrar

Você
é tipo aquele quadro
feio
brega
e velho
que tem em casa
que a gente quer se desfazer
faz tempo
e no dia que a gente tira
da parede
descobre que tem um rachado
atrás
e toda vez que olha
pro rachado
na parede
lembra do quadro
feio
brega
e velho
que tinha no coração.

Se tenho saudade das coisas que a gente fez imagina do que não deu tempo de fazer

A grave
gravidade
que seu corpo ainda exerce
sobre mim
é um jeito
injusto
de me atrair.
Como são apaixonáveis
as pessoas
que já não temos mais.
Atrair alguém é mesmo muito sério
já reparou?
Manter alguém grudado
não deixa ninguém voar.
E
ficar com os pés plantados em você
não me deixa chegar em outros corpos.
Voar
virou
um exercício despraticado.
Eu queria escrever mais
de mim
e menos
de você.
Mas
por ora
não sou capaz.

O amor pode ser tanta coisa que seria bem egoísta dizer que o amor é uma coisa só

Amor é matéria. Vamos começar por aqui. Acredite. Até agora mentiram pra você. Pro seu coração, pras pessoas, mentiram pra todo mundo. O amor pode viajar no espaço e no tempo. O amor não é sentimento. O amor é palpável. Pegável.

O amor é aquilo que a gente toca quando tem saudade. É aquilo que a gente beija quando tá feliz. É aquilo que a gente quebra quando tá com raiva. O amor é aquilo que escorre salgado quando a gente perde. Quem diria, né? O amor tem gosto. Tem cheiro. Tem forma. E textura. Amor é bolo. É roupa. É pelo de cachorro. Ingresso de show.

Amor não é o que você tem dentro do peito. Não é o que você sente por alguém. O que a gente sente por alguém é confiança, inveja, ódio, respeito e tantas outras coisas. Amor é o que você faz por alguém. Amor é a forma que o corpo encontra pra mostrar o que a gente sente. Ninguém pode falar eu te amo só usando o coração.

Microconto #662

A cidade foi crescendo
crescendo
crescendo
até que não cabia mais nos planos da família. Voltaram pro interior com vontades alargadas.

Microconto #661

A cidade foi crescendo
crescendo
crescendo
até que não cabia mais nos planos da família. Voltaram pro interior com vontades alargadas.

Você sabe a diferença entre um laço e um nó?

Laço é aquilo que prende a tampa de um presente de um jeito tão bonito que você nem quer abrir. 
Mas, você vai lá e abre.
Sabe por quê?
Porque quanto mais você espera, mais tempo você demora pra pegar o presente.
Esse é lado bom de desfazer laços: recompensas.
Assim como o laço, o nó também serve pra prender as coisas, pra prender as pessoas, pra te segurar no trabalho, pra te prender num amor.
A diferença, é que o nó, prende de um jeito menos bonito, por isso é fácil confundir.
Tem muita relação por aí que parece laço, mas é nó.

Que dó.

Não existe razão pra você ler esta história

Dona Eduarda viveu uma vida inteira de enganações. É duro falar assim, logo no começo da história, eu sei, mas, é a pura verdade. Se você espera um romance, não perca seu tempo.

Dona Eduarda conheceu o marido ainda na adolescência, quando ele tinha apenas dezesseis. A vida era só uma esperança de coisas boas. Com projetos, filhos gêmeos e algumas viagens.

Não foi.

Dona Eduarda nunca saiu de Brasília. Nunca visitou amigos. Nunca cursou medicina. Nunca aprendeu outro idioma. Dona Eduarda nunca viveu um amor de verdade.

É difícil contar uma história de desamor. A história de um casal que morou a vida toda num castelo desencantado. Se você já tentou, sabe do que estou falando. Ninguém quer saber sobre isso. Não dá audiência. As pessoas não recomendam. Não vira novela. Os estúdios mudam o nome dos filmes tristes pra enganar o público. Dona Eduarda nunca vai ser famosa.

Eu não gosto de enganações. Por isso já te avisei no começo. Essa história não acaba bem. Não espere mais do que arrependimentos daqui. Dona Eduarda nunca ganhou flores; só favores. Nunca ganhou chocolate, atenção ou presentes. Dona Eduarda não tem nada pra ter saudade.

E mesmo assim, Dona Eduarda não se entregou.

Dona Eduarda foi melhor do que pediram. Foi mais carinhosa do que esperavam. Foi mais amante do que pensavam. Foi mais mulher do que mereciam. A esperança de Dona Eduarda jamais caiu, diminuiu ou morreu. A esperança jamais foi alimentada, mas nem por isso deixou de existir.

O marido de Dona Eduarda, que o nome não interessa falar, porque afinal, essa história não é sobre um casal. É sobre uma mulher traída e desiludida. Dona Eduarda foi esposa, mas o marido não foi marido.

A história sem eventos de Dona Eduarda acaba aqui, nos dias atuais, onde ela continua leal. Até o presente momento, Dona Eduarda olha pra trás e ainda sonha que sua vida daria uma linda canção.

Mas ninguém quer cantar.

Incrível como a gente sonha mais acordado do que dormindo

A primeira vez que você dormiu lá em casa
gostei muito do cheiro da sua respiração.
Não sei se alguém já te falou isso mas,
gostei de ficar deitado
de frente pra você,
esperando seus olhos abrirem pra te beijar
de novo.
Era como se eu pudesse ver sua respiração sair.
Sua respiração era tão boa que o mundo
tentava retribuir.
A cortina balançava e chegava na gente
uma brisa cheirosa de primavera.
Você se arrepiou dormindo.
Ver seu arrepio era uma coisa
contagiosa.
Passeei
de leve
meus dedos pelos seus cabelos,
querendo
e não querendo te acordar.
Os segundos em que tudo isso aconteceu
foram eternos.
Você ainda não sabia que era amor.
E apesar de todos os sinais,

nem eu.

Microconto #660

Pensei em escrever um conto erótico sobre o que a gente pode fazer amanhã.
Mas resolvi escrever sobre o que a gente fez ontem.

Inverno é a única estação que não me lembra você

A casa vai enchendo de café
É incrível
que
até os dias sem você
amanhecem tão você
O sol atravessa a janela
passa pela fresta
e faz verão na saudade
Espero na cama
seu cabelo outono
me alaranjar
mais uma vez
As marcas no corpo
hoje
quem fez
foi só o lençol
A tarde chega
e eu não quero
sair das lembranças
Fico aqui deitado
bebendo
fumando
pensando
e entardecendo
Anoiteço os sonhos
e durmo
sabendo que amanhã
seu cheiro primavera
vai florescer sorrisos
tudo de novo. 

O misterioso caso do homem que usava perfume de cacau

Desde que eu nasci meu pai trabalha com chocolate. Então, era comum ele chegar em casa com esse cheiro. Quando eu era pequeno achava que trabalhar com chocolate era tão bom que, era por isso que meu pai chegava tarde da firma. A gente não se via muito nessa época. Ele ficava muitas horas dentro de uma fábrica pra trazer dinheiro pra casa.

Ver meu pai chegando do trabalho era como ver alguém abrindo uma porta de um mundo onde morava a alegria. E esse mundo tinha um cheiro incrível. Engraçado que, apesar de gostar muito de chocolate, acho que eu preferia viver num mundo sem chocolate, sabe? Um mundo onde as contas não fossem tão caras, um mundo onde meu pai tivesse que trabalhar um pouco menos e eu pudesse ver ele um pouco mais.

É um pedido injusto, eu sei. Mas só entendi melhor isso agora, depois de ficar velho. Morar sozinho me fez enxergar as coisas de um jeito mais adulto. Minhas contas também não são baratas, também não paro muito em casa e vejo meu pai menos do que queria. É como se toda vez que eu faço uma visita , eu chegue por lá com um cheiro também, mas no meu caso não é cheiro de chocolate, é cheiro de saudade mesmo.

Tentativa de se matar(mos)

Eu não me importo amor
com a dor
eu não me importo

Quero que você caia da janela do nono andar
mas quero que caia
que caia bem devagar

Quero que você tome todos os remédios
mas que no fim
no fim morra só de tédio

Quero que você se jogue na frente do trem
mas quero que ele
que ele esteja parado meu bem

Eu só me corto amor
com a flor
eu só me corto com a flor.

Manual de instruções sobre como sofrer um pouco menos

Quando algo tiver faltando em você
deixa eu te lembrar do nosso passado.
Quando o vazio de dentro
for grande demais
vou te dar uma dica
abre bem a boca com um sorriso
e deixe entrar felicidade.
Escuta só que notícia boa
a gente não tá mais junto
e mesmo assim
ainda sinto o calor da sua mão
segurando a minha enquanto caminha.
Quando você tiver cabisbaixa
coloque seu melhor sapato.
Quando o céu tiver cinza
lembre que eu tenho
um lençol azul. Lá em casa
ninguém nunca mais entrou
com um perfume igual o seu.
Mas ó
fico por aí juntando pedaços da gente
e por mais que eu tente
continuo incompleto.
Nunca fico cheio de você.

O que eu disse pra ela é um pouco do que você também podia dizer

Eu falei pra ela que nem todo homem é igual. E foi exatamente nessa hora que eu percebi que tava fazendo igual todo homem. Foi nessa hora que eu percebi que, talvez, ela tivesse cansada de ouvir as mesmas coisas. Ou, simplesmente, tivesse só cansada de ouvir, sabe? Ela queria ver mais, sentir mais, decidir mais. Foi nessa hora que eu percebi que meu papel de homem tava cobrindo um pouco o papel dela de mulher.

Nos últimos dias ela chegou a me cobrar novidades. E eu errei, óbvio, dei presentes, flores, viagens e mais um monte de coisa que não serve pra alma. No fundo, ela só queria um pouco mais de liberdade e um pouco mais de confiança. As mulheres não são difíceis de entender. A gente é que anda com uma preguiça danada de tentar.

Acho que um dos maiores problemas das pessoas, ultimamente, é a falta de transparência, nas relações e na vida. E aqui, não é exclusividade minha, ou sua. As pessoas, no geral, podiam ser um pouco mais honestas. Não é errado não querer. Não é porque você vive a dois, a três ou a sete, que os jeitos vão ser os mesmos. Cada um pode pegar um caminho e se encontrar no final. E isso não deixa de ser amor, entende?

As relações são uma via de mão dupla que tão cada dia mais se unilaterizando. O excesso de insistência, a cobrança errada, a obsessão pela minha vontade e o descaso com suas escolhas são alguns dos culpados. Queria te pedir desculpa. Por mim e pelos outros. Mas juro, andei reparando e vou mudar meu jeito de ser. E mostrar pra você e pra mais um monte de gente como liberdade é bem diferente de abrir mão. Você pode experimentar novos gostos e, mesmo assim, continuar gostando dos mesmos sabores. Vai lá.

Microconto #659

Cada pipoca parecia uma galinha pequenininha, branquinha e gordinha. A menina segura o saco, olhando pensativa e de repente estoura uma pergunta "pai, o pintinho é um milho que ganha vida dentro da galinha?" O pai balança a cabeça que sim sem tirar os olhos do celular. Agora, cada pipoca, parece ainda mais uma galinha. Ela sorri satisfeita. Entra atrás do pai na sala de cinema escura e toma um baita cuidado pra não derrubar os bichinhos pelo chão.

A gente perde muito tempo se dedicando em ser o que não é

Quantas vezes você não escovou bem os dentes pra ir ao dentista mas, depois do almoço escovou rapidinho porque tava com pressa?
Quantas vezes você não se vestiu bem pr’um encontro mas, foi desarrumado pro cinema depois de um ano de namoro?
Quantas vezes você não cortou o cabelo pr’uma entrevista mas, foi trabalhar desleixado numa terça-feira?

Tem um trecho no filme When Harry Met Sally que eu gosto muito, que é quando os dois personagens tão discutindo sobre o começo dos relacionamentos e o Harry fala “Se você levar alguém ao aeroporto, é claramente o início de uma relação. Por isso nunca levo no início. Porque às vezes as coisas evoluem, e acabamos não indo mais ao aeroporto. E não quero que ninguém me diga: por que você não me levou mais ao aeroporto?”

Este não é um texto pra te tornar uma pessoa melhor. Também não é um texto pra me tornar uma pessoa melhor. E muito menos um texto pra melhorar o mundo. Este texto é só pra gente pensar um pouco e ver se dá pra fazer diferente. E eu não tô falando de mudanças radicais, tô falando de expectativas.

Eu sei que é difícil mudar o leme no meio da rota. Então, que tal fazer isso na sua próxima decisão? Tipo um teste. Que tal começar seu próximo objetivo por baixo, sendo você como você realmente é, e só então, com o tempo, tentar ser melhor?

Como falar sobre chaves quando você quer falar sobre amor?

Já reparou que muita gente tem uma chave que não usa pra mais nada?
Uma chave que já abriu um portão antigo que levava pr’um lugar incrível?
Uma chave que abria uma portinha cheia de passado amarelado?
Uma chave que abria um baú com cheiro de saudade?
Uma chave que fica perdida no fundo da gaveta, pendurada no chaveiro no meio de outras chaves ou dentro de um velho pote?

Guardar chaves só ocupa espaço. Quantas chaves você têm guardada em casa que não abrem mais nenhum coração?

Amizades são inspirações que a gente pode abraçar

Dia desses reencontrei amigos de infância. A gente riu de uns erros do passado e conversou sobre lembranças. Esses amigos viram muitas das minhas memórias nascerem. Aquelas memórias de joelho ralado, campinho de terra e bola no portão, sabe?

O lugar onde cresci não era um lugar muito seguro. Tinha a molecada do fundão que cortava a pipa da gente. Tinha a molecada da rua de trás que jogava a bicicleta na nossa frente. Um mundo de pequenos problemas cercado por problemas grandes de verdade.

A violência sempre teve lá, rodando as noites de esconde-esconde. Do lado de fora da janela quando a gente jogava vídeo-game na sala. No coração da mãe quando a gente demorava pra voltar. E mesmo assim, por mais que a violência tenha batido na porta, oferecido chances ou facilitado o futuro; a gente preferiu rodar pião.

Esse dia que reencontrei meus amigos, pude ver como todo mundo tá bem. Como todo mundo seguiu descente. Como crescemos por dentro, por fora e, principalmente, pra frente. Esse dia me fez acreditar que se fosse possível, eu nasceria mais uma vez, passaria por tudo isso, só pra chegar até aqui e abraçar, de novo, cada um de vocês.

Microconto #658

No fim da festa, sobramos eu e você, em meio a restos enfeitados.
Nossos sentimentos eram tipo copos descartáveis.
Procuramos uns limpos.
Mas a gente acabou se bebendo nos dispensados.
Seu beijo foi uma mistura de gostos antigos, transformados em sabores novos.

Você é uma secreção incolor e salgada, produzida pelas glândulas lacrimais, pra umedecer meu passado

Existem muitos jeitos de desaparecer da vida de alguém. Mas, nenhum deles se compara com virar lágrima. Quando você vira lágrima, você escorre pra fora e não consegue mais escorrer pra dentro.

Lágrimas são pessoas que a vida espreme pra fora da gente. Por mais que você espere, por mais que você peça, por mais que você tente. Quando você vira lágrima, você desaparece pra sempre.


Toda vez que eu penso em você minha boca salga. A maresia da saudade me enjoa. Não adianta mais eu implorar. Você escorreu de mim. E de todas as coisas que o amor permite, a única que não vai acontecer, é você voltar.

Eu não sonho mais com você porque você não dorme mais em mim

O dia envelhece aos poucos
e a saudade deixa de ser verde.
Amadurece.
Apodrece.
Cai do pé.
E no lugar, nasce um novo carinho.
Quando o amor amanhece
ele já não é o que era na noite anterior.
Eu bebo pra esquecer que lembrei de você.
Recordar é bom.
Mas não lembrar, meu deus, é bem melhor.
Aos poucos o desejo endurece e se faz pedra.
Ninguém mais me quebra depois de ti.
Eu anoiteço com outro sorriso.
O seu amor não rejuvenesce mais aqui.
Tipo brisa leve você passou
e refrescou meu coração.

Deixei a janela aberta
pra ver se você volta.

O calor da saudade
dá uma suadeira danada.

Eu sou brigadeiro. Você é uma festa lotada de crianças.

Tudo o que sobrou da minha vida é o que não foi embora dentro da sua mala dobrado com as roupas, as cartas e as lembranças. Tudo o que sobrou de mim é o que você não levou. E olha, você levou quase tudo.

Eu me sinto como aquele restinho do vinho que a gente toma sozinho no domingo a noite, aquele restinho que fica no fundo da taça e que, por mais que a gente vire na boca, não consegue beber. Tudo o que sobrou de mim é o que fica grudado na tampa da pizza quando a gente pede menos pizza do que devia e os amigos tavam com mais fome do que parecia. O que sobrou de mim é o pouquinho do iogurte que a gente toma no almoço de sábado porque não sabe cozinhar, aquele pouquinho que sobra no pote onde a língua não alcança e por mais que a gente raspe com a colher, não sai. Tudo o que sobrou de mim é o que sobra de sol num dia de eclipse total. É aquele pedacinho de pele que fica no cantinho do dedo depois que a gente rói a unha de nervoso esperando alguém ligar, aquele pedacinho que a gente não consegue tirar nem com o alicatinho mais afiado da mãe.

Eu sou agora aquele restinho de chocolate que fica grudado no papel depois que a molecada acaba com os doces no aniversário. Aquele papel que fica jogado em cima da mesa, amassado, largado, esperando a faxina começar. Aquele que vai pro lixo e se der muita sorte, mas muita sorte mesmo, vai ser reciclado, virar outro papelzinho, chegar em outra festa infantil, guardar outro brigadeiro e esperar você comer, só pra ter a chance de ficar mais um pouquinho contigo antes de você acabar comigo. De novo.

Microconto #657

A fé escorre pelos ralos dedos da senhora que ora por horas esperando que a esperança não morra.
No fim, morre a fé, a esperança e a senhora.
Mas não morre as horas.

Pesos e desmedidas

Eu sou
leve
com você.

Pesado é
ficar
em mim.


Me leve.

Já tentei de tudo pra me suicidar de você

De todas as drogas que já provei
você é a única que me faz bem.
Talvez seu gosto tenha asas e
colocar a boca em você
me faz subir num céu que nem plantei.

De todos os venenos que já conheci
você é o único que não me mata.
Acho que seu cheiro tem cor e
encher os olhos de você
me faz ver sorrisos que não pintei.

De todas as armas que já usei
você é a única que não me machuca.
Pode ser que seu corpo tenha flor e
encostar o carinho em você
me faz brotar amor que nunca nadei.

De todas as doenças que já peguei
você é a única que não me acama.
Vai ver seu vírus tem calor e
esfregar as mãos em você
me faz viver, ao invés de morrer.

Vai ver.

Tempestade

Chove em mim agora
vem deitar na cama
fazer trovão no corpo
deixa molhar aqui dentro
mais que lá fora.

A primeira vez que eu morri, foi de amor

Num dia meu coração tava batendo normal.
No outro, simplesmente acelerou.
É difícil explicar a sensação pra quem nunca morreu.
É uma mistura de prazer e dor.
Porque é como se o seu coração fosse abraçado
mas,
é como se fosse abraçado até esmagar.
Aí, chega uma hora que você começa a pensar
“quantas coisas eu vou deixar de fazer agora que morri de amor?”
As festas que não vou mais. Os jantares que vou recusar. Os amigos que vou esquecer. O trabalho que vou perder. As viagens que vão sumir.
Morrer, no fim das contas, é uma triste liberdade.
Você abre mão de tudo, pra começar uma nova jornada.
E como toda jornada, você vai deixar coisas pra trás.
Mas, tudo bem, porque toda morte de amor, faz seu coração abrir espaço, e todo coração com espaço consegue levar novas histórias, e toda história que aparece pode te mostrar lugares, e todo lugar que você descobre consegue te apresentar pessoas, e toda pessoa que surge tem a chance de entupir sua veia da paixão, e quando você tá entupido de paixão... cuidado, vai com calma, é hora de cuidar do coração, porque foi assim que eu morri de amor da primeira vez.

Quanto tempo eu coloco no micro-ondas pra esquentar amor?

Morar sozinho faz com que você perca algumas regalias na vida.

Hoje, depois de quase 4 anos longe de casa, eu trouxe pro almoço, uma marmita com comida da mãe.

Por mais que você visite sua família, por mais que você passe uns dias lá, no fundo, você não é mais um morador. Você é um visitante. E ser um visitante, faz com que você preste atenção em detalhes que antes passavam despercebidos. Como por exemplo, a comida da sua mãe.

Viver num lugar por muito tempo cria em você uma espécie de camuflagem pras diferenças. A mancha na parede, que era só pintar, vai ficando por lá. A porta quebrada do armário nem te incomoda mais. A comida da sua mãe, que apesar de gostosa, acaba virando rotina no paladar.

Hoje, depois de 4 anos longe de casa, a comida vai ser uma marmita da mãe. Um potinho cheio de amor que meu almoço nem lembrava mais o sabor.

Eletrisaudade

Toda vez que eu chego em casa a noite depois do trabalho é como se eu pudesse ouvir nossa última conversa. Eu olho pro tapete. Era bem ali no meio que eu tava quando disse pra você “volta aqui, eu ainda não terminei de falar.”
Aí, você fechou a porta, e nunca mais entrou.
É, eu sei, não foi bem uma conversa.
Mas, se te contenta saber, ainda faço as mesmas coisas todos os dias como se a rotina pudesse voltar.
Ainda coloco a bolsa no mesmo lugar, em cima da mesinha que tem perto da porta. Ainda confundo o interruptor e acendo a luz errada. Ainda guardo a bolacha dentro da geladeira mesmo sabendo que “desse jeito pega umidade e murcha mais rápido”. Ainda jogo o sabão em pó direto na roupa mesmo sabendo que “não é pra fazer isso, pode manchar tudo”. Ainda bebo o leite direto na caixinha mesmo sabendo que “pode azedar”.
Seus gatos ainda me recebem com o mesmo carinho. É engraçado. Parece que bicho se apaixona pela gente todo dia. Parece amor em looping. Pena que a gente não é bicho, né?
Depois do banho quente, preparo alguma coisa pra comer e sento na sala.
Às vezes ligo a tevê e coloco no mudo só pra ficar ouvindo aquele chiado. Aquele chiado que quebra o silêncio da casa, sabe? Às vezes esqueço a luz do banheiro acesa pra ver se você vai aparecer, apagar e brigar comigo.
Por mais silenciosa que seja uma casa vazia, ela é cheia de barulhos de saudade.
O motor da geladeira liga e desliga de tempo em tempo e eu lembro que você ficava tentando adivinhar que horas ele ia ligar de novo.
Falando nisso, você já acertou alguma vez?
O ventilador no teto é silenciosamente ensurdecedor. Eu saio da sala, jogo os pratos na pia e escovo os dentes ouvindo o barulho da lâmpada em cima do espelho.
Eu deito na cama que hoje só esquenta um lado. Não consigo mais dormir no quarto todo escuro sabia? Parece que eu tô caindo e não tenho mais você pra me segurar.
Anoiteço ao som do abajur.
Eu nunca tinha ouvido o som do abajur antes de você fechar a porta e nunca mais entrar.

Pé de menina

O amor
é um passarinho
que pousa
de galho em galho
e que
de vez em quando
faz ninho.

Aconchegar-se-ei-te-me

Quando sua mão pousou em mim
pela primeira vez eu aninhei
Já se passaram tantos sonhos
sob seus voos que hoje
eu adormeço em galhos de pele
Sob a sombra da copa
de cabelos seus
eu me refresco do sol de saudade
A tarde vai colorindo
o céu da boca
e as pétalas caem dos olhos
agora
com mais calma
Sua cabeça outono
avermelha meu rosto
toda vez que
minha boca
não consegue ficar longe
da sua boca
Ocupamos o mesmo espaço
nas estações
só que a cada primavera que passa
somos mais verão
e menos inverno
Amanheço em gramado verde
de um colo maduro
Recomeçamos o dia
com o amor de sempre
com o orvalho nos olhos.

Minha poesia é uma ilha de você cercada de eu's por todos os lados

Eu queria ser poeta
escrever vontades
falar só de coisas que já senti
não inventar verdades.

Eu queria fazer rimas
juntar palavras que não combinam
tirar da sua boca uma frase-sorriso
fazer mágica com papel.

Eu queria cantar versos
mexer em corações com os dedos
colocar som de estrelas nos seus sonhos
borboletar seu estômago.

Eu queria me palavrear
escrever-me amor dentro de você
entrelinhar-me nas suas vontades
virar um marcador de página na sua vida.

Vindas e idas do amor

Ontem eu parei pra lembrar do dia que você chegou.
Cê lembra?
Foi um dia meio assim, com sol dentro de casa, sabe?
Quando chove lá fora mas aqui dentro da gente é verão?
Era como se a porta da sala abrisse pr’um campo de orquídeas.
Eu nem sei se orquídea dá no campo, mas, pra mim,
era uma visão muito boa pra falar de você.
Era uma terça-feira com sabor de sábado a tarde.
Eu sei, eu sei, tem um monte de gente que prefere sexta-feira
e mais um monte de gente que prefere domingo.
Mas, sábado, pra mim, era o melhor dia-você.
Eu lembro que a vida tocava a música do amor.
E olha, eu nunca gostei muito de música.
Foi quando eu olhei no relógio e não vi hora melhor pra você chegar.
Que por mais roupas que eu tentasse colocar, no fim,
me vestir do seu sorriso era a melhor combinação.
Que eu disse, tá sentindo esse cheiro,
e você sorriu,
balançou a cabeça
dizendo que não
e eu te chamei de flor
desde então?
Lembra o dia que você chegou?
Lembra?
Pra mim, o dia que você chegou,
só não foi melhor
que o dia que você partiu.

Felicidade foi tudo que eu consegui sem você

Quanto de felicidade você consegue aguentar?
Você consegue conviver, por exemplo, com o fato que eu tô melhor?
Que achei alguém que me cuida mais do que você, meu bem?
Que vou ser pai e o nome eu nem sei ainda porque antes de ter nome é importante ter a notícia e só de ter a notícia eu já tô feliz?
Você consegue conviver com o fato de eu ter um emprego novo, um carro novo, uma rotina nova e um coração novo?
Consegue conviver com essa avalanche de felicidade? Consegue?
Saber que a vida foi muito legal comigo e que tudo que eu sempre quis com você, hoje eu tenho sem você?
Consegue conviver com a notícia de que comprei uma xícara nova pro café da manhã e nela ta escrito eu te amo, mas não é pra você?
Consegue aceitar que eu deito pra assistir filme no colo de outra pessoa? Que eu ganho cafuné sem pedir? Que ela não tem alergia das flores e por isso a casa sempre amanhece com cheiro de férias no campo?
Enfim, espero que você esteja tão feliz quanto eu pra que eu não fique tão triste quanto você.
Vem me visitar qualquer dia. Vamos trocar lembranças. Falar de mofos e rancores.
Quem sabe a gente não descobre que a felicidade sempre foi sustentada por pilares de tristeza.
Essa é a vida, meu bem.
Um desequilíbrio de igualdades.